Ministério da Cultura e Iphan celebram, em Recife, Patrimônio Cultural do Brasil

Primeiro gênero musical criado especialmente para o carnaval, o frevo é um dos principais símbolos da identidade pernambucana. Unindo música, dança e poesia, a manifestação cultural congrega multidões desde o seu surgimento nas ruas do Recife, no final do século 19. Neste ano, o ritmo completa 10 anos como Patrimônio Cultural do Brasil, título concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O frevo também é, desde 2012, Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Os 10 anos de reconhecimento do frevo pelo Iphan foram comemorados nesta quinta-feira (9), data em que Pernambuco celebra oficialmente o Dia do Frevo, em uma grande festa no Paço do Frevo, em Recife, com a presença do ministro da Cultura, Roberto Freire, e da presidente do Iphan, Kátia Bogéa. Durante todo o dia, o ritmo será festejado em todas as suas formas de expressão, seja o frevo de bloco, o frevo-canção ou o frevo de rua, com apresentações de músicos, passistas e grupos da cidade.

O dia também marca o aniversário de três anos do Paço do Frevo, criado em 2014. Iniciativa da Prefeitura do Recife, o espaço funciona como um ambiente de convivência e reflexão, experimentação e renovação, criação e difusão, que oferece um painel, aberto e contemporâneo, de narrativas, memórias e linguagens, tornando-se uma referência para a salvaguarda do frevo e um ponto de atração para artistas, curadores, produtores e programadores do Brasil e do mundo. Nesses três anos, recebeu mais de 310 mil visitantes. Em 2016, sediou mais de 100 apresentações artísticas e uma série de atividades educacionais, realizadas com o aporte de R$ 1 milhão em patrocínio pela Lei Rouanet.

“É uma imensa satisfação e uma grande emoção conhecer o Paço onde a gente pode fazer o passo. Desde menino, brinquei o carnaval de Recife e de Olinda. Foi acertada a decisão de transformar o frevo em patrimônio, porque comprova que é uma expressão imortal, algo do povo, que era contra as autoridades. Não há nem pernambucano, nem alagoano, que, ouvindo uma vassourinha, não tenha vontade de pular, de se entregar a um processo profundamente democrático”, destacou o ministro Roberto Freire.

O ministro ressaltou a importância da Lei de Incentivo à Cultura para as atividades do Paço do Frevo. “É importante dizer que aqui está presente, de forma muito concreta, algo que hoje em dia é muitas vezes demonizada, a Lei Rouanet, que é antiga. Desvios podem existir, mas é fundamental ter uma lei. E, vendo isso aqui, posso dizer que funcionou, que é importante. É uma satisfação ver que este local é mais do que um museu, é uma oficina de formação aberta permanentemente ao povo de Recife”, afirmou.

O 9 de fevereiro foi escolhido como Dia do Frevo em Pernambuco por ser o marco simbólico do surgimento da manifestação cultural: pela primeira a vez, a palavra frevo foi registrada, nas páginas do Jornal Pequeno, que circulou no Recife até a primeira metade do século 20. A palavra vem de ferver, por corruptela, frever, que passou a designar efervescência, agitação, confusão, rebuliço.

Também participaram da cerimônia o prefeito de Recife, Geraldo Júlio, o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja, e a secretária de Cultura de Recife, Leda Alves, entre outras autoridades.

Sentimento popular

Quando saiu pelas ruas de Recife pela primeira vez, no carnaval de 1978, o bloco Galo da Madrugada reuniu 75 pessoas, que acompanhavam uma orquestra de 22 músicos. Passados 39 anos, o bloco se tornou um dos maiores fenômenos do carnaval pernambucano, sendo responsável pela propagação do ritmo em diversos lugares do Brasil e do mundo. Em 2016, a exemplo de anos anteriores, o desfile do Galo reuniu milhões de pessoas em torno dos 30 trios com orquestras, que tocaram 10 horas ininterruptas de frevo.

Na avaliação do presidente do Galo da Madrugada, Rômulo Menezes, o título de Patrimônio Cultural ajudou a tornar o frevo algo além de uma manifestação cultural regionalizada. “De um modo geral, sempre houve uma resistência das pessoas em ouvir frevo fora do período do carnaval. A titulação concedida pelo Iphan fortaleceu o ritmo e o tornou ainda mais popular. Aos poucos, o frevo foi deixando de ser um gênero musical exclusivo do carnaval. E o frevo saiu das ruas do Recife, dos limites do estado”, declarou.

O frevo, mais que uma expressão da cultura pernambucana, tornou-se uma paixão que foi levada para outros cantos do país e do mundo. “De Manaus a Porto Alegre, de Quebec, no Canadá, à cidade de Ho Chi Minh, no Vietnã, é possível encontrar uma representação do Galo da Madrugada, que são mantidas por pessoas apaixonadas pelo frevo. Isso mostra que o Brasil reconhece suas culturas locais e que o frevo passou a ser tão valorizado quanto outras manifestações, como o forró, o samba”, orgulha-se Rômulo.

Visibilidade para blocos independentes

A titulação concedida pelo Iphan também abriu caminho para a consolidação de outros grupos, dos tradicionais aos independentes. É o caso do Clube de Bonecos Seu Malaquias, fundado em 1954. Presidido por Xôxo Malaquias, o bloco é um dos mais tradicionais do Recife. Para Xôxo, o fato de o frevo ter se tornado patrimônio cultural mostrou mais força para os grupos que atuam na área. “Não resta dúvida de que isso abriu portas para que participássemos de editais, de outros concursos. Ampliou a visibilidade de pessoas que já vinham há muito tempo desenvolvendo um trabalho cultural sério com o frevo”, afirmou.

O clube, que recentemente recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, mantém atividades ligadas à manifestação durante todo o ano, independentemente do carnaval. Com o projeto Frevo da Humanidade, os integrantes do clube levam para diversas cidades do Brasil um espetáculo teatral que conta todo o processo de evolução do frevo, desde sua criação até os dias atuais. “Já estivemos em Minas Gerais, Distrito Federal, Tocantins, Pará e Rondônia com músicos, passistas e uma historiadora que narra o surgimento do frevo, que derivou da polca, do maxixe e dos dobrados militares”, explicou.

Chamado carinhosamente de Rei do Frevo, Claudionor Germano comemora este ano 70 anos de carreira. Neste dia em se celebra o dia do frevo, o artista lançará sua biografia na qual descreve as dificuldades dos artistas para divulgar seus trabalhos. “Havia muita resistência ao frevo, tudo que fizemos foi com muito esforço. Dediquei minha vida a essa expressão cultural e sei o quanto o frevo mereceu este reconhecimento”, disse.

Fonte: Assessoria de Comunicação do Ministério da Cultura

Foto: IPHAN


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