Deputado evangélico usa da malandragem para dar uma rasteira nos capoeiristas

Por

Paulo Magalhães – Contramestre Sem Terra

Rede Nacional de Ação pela Capoeira

Via Guest Post

Bispo Marinho convocou a audiência pública na véspera de receber PL e só chamou federações. O projeto de lei que daria liberdade ao capoeirista agora o escraviza às federações e confederações

Que o fundamentalismo pentecostal representado politicamente pela bancada evangélica persegue e demoniza sistematicamente as expressões culturais de matriz africana, todo mundo já sabe há muito tempo.

Basta ler as publicações e ver os programas televisivos que promovem campanhas sistemáticas de desqualificação do candomblé e da cultura negra todo santo dia, além dos crescentes casos de intolerância religiosa que chegaram ao ponto de agressões físicas contra crianças e idosos.

O que não se esperava é que os parlamentares desta bancada fossem tão maliciosos a ponto de tentar dar um golpe na capoeira por debaixo dos panos, na calada da noite, na surdina. Malandragem nada cristã.

O PL 17/2014, proposto dentro do Senado, foi uma articulação para que os capoeiristas não acadêmicos pudessem dar aula nas escolas sem a necessidade de se vincular a nenhuma entidade burocrática centralizada como o CONFEF ou a CBC.

Foram feitos debates públicos, sugestões foram acolhidas, e em cena emblemática, o relator, senador Otto Alencar, falou de suas vivências com o Mestre Bimba e entregou um berimbau ao senador Romário, presidente da comissão, clamando pela sua aprovação. Até aí tudo certo.

Ao dar entrada na Câmara dos Deputados, o PL 17/2014 se transformou em 1966/2015. O projeto chegou na Câmara no dia 17/06/2015 e foi encaminhado para as comissões de esporte, educação e constituição e  justiça no dia 23/06/2015, passando a ter o bispo Márcio Marinho como relator.

Entretanto, no dia 16/06/2015, na véspera da chegada do projeto, o bispo Marinho protocola um requerimento para realização de audiência pública sobre “A Capoeira no Brasil”.

Ou seja, o projeto chega na quarta e ele pede uma audiência pública na terça sobre o mesmo tema do projeto, embora sem nenhuma vinculação oficial com o mesmo! Caramba, que coincidência! Seria a manifestação de um dom profético? Teria o Deus de Israel contado ao bispo que no dia seguinte chegava um projeto, então que era melhor ele pedir logo uma audiência pública genérica?

E por uma coincidência maior ainda, ele teria tido a inspiração de só chamar para a mesa federações e confederações, as maiores interessadas no golpe que armaria depois contra a capoeira?

Não podemos ser ingênuos! Esse povo não dá ponto sem nó, e enquanto a gente tá indo com o caju, eles já estão voltando com a castanha. O bispo utilizou da malandragem, achando que ninguém perceberia a artimanha. Como ele criou a frente parlamentar em defesa da capoeira, sabia que o projeto cairia em suas garras.

Então protocolou a audiência chamando quase que só o sistema desportivo. Se a festa fosse particular, como ele pretendia, era só ele vincular a audiência ao projeto e “tava tudo certo”. Ficava justificada a exploração obrigatória dos capoeiristas pelas federações.

Mas não foi bem assim que aconteceu. A militância da capoeira “invadiu” a audiência pública no dia 25/08/2015, e com firmeza e propriedade, denunciou as diferentes tentativas de regulamentação e controle da capoeira pelos burocratas.

Os vídeos das falas feitas neste dia, pelos mestres Duda, Soldado, Paulão Kikongo, Zé Doró, Brucutu, Balão, Squisito, CM Sem Terra e outros circularam o mundo, e se transformaram em marcos da luta pela capoeira livre, autônoma e independente.

O que fez então o bispo? Ignorou solenemente todo o debate feito neste dia e apresentou um substitutivo ao PL 1966/2015 estabelecendo a obrigatoriedade de filiação ao sistema de organização desportivo da capoeira (federações e confederações) para dar aula de capoeira nas escolas.

Como a audiência pública não estava formalmente vinculada ao projeto de lei, foi “varrida pra debaixo do tapete”.

Aqui na Bahia temos uma expressão: “jogar o barro na parede pra ver se cola”. Se na audiência pública só aparecesse a panelinha tava tudo certo. Mas como foi dito o que eles não queriam ouvir, esconde ela, deleta, apaga, esquece.

Esse golpe que estamos sofrendo é só a ponta do iceberg. Quais são os reais interesses da Igreja Universal do Reino de Deus, representada politicamente pelo PRB, na vinculação obrigatória da capoeira ao sistema federativo?

De uma coisa sei: não são nobres, nem desinteressados, nem benéficos para a nossa comunidade. Abre o olho, capoeira! Vamos fechar a guarda e contra-atacar!!!

Mais informações nos links:

Tramitação do PL 1966/2015:

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1384147

Convocação da audiência pública:

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=1307559

Página da audiência pública com todos os vídeos e falas:

http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/webcamara/arquivos/videoArquivo?codSessao=53711#videoTitulo

Matéria sobre audiência pública:

https://www.facebook.com/notes/rede-nacional-de-a%C3%A7%C3%A3o-pela-capoeira/capoeira-se-une-contra-os-novos-capit%C3%A3es-do-mato/977087392352140/


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