Um momento de reflexão para você capoeirista

Mestre Paulão Kikongo
De Mestre Paulão Kikongo setembro 22, 2019 13:33

Um momento de reflexão para você capoeirista

Mestre Cobra Mansa via Guest Post

Nós capoeiristas, no Brasil e em todo mundo, somos na maioria, trabalhadores da construção, professores, estudantes, esposas, maridos, doutores, advogados, banqueiros, administradores, desempregados, músicos, artistas, etc.

Em resumo, fazemos parte desta coisa que chamamos SOCIEDADE. Logo, vivemos e seguimos muitas ou a maioria das práticas que esta sociedade possui. Somos, inevitavelmente, o elemento básico que constitui a sociedade; ela existe porque estamos nela. Mas ao mesmo tempo, não somos absorvidos ou assimilados a força por esta sociedade e, pessoalmente, acredito que é ai que nós capoeiristas, como qualquer outro grupo na sociedade, podemos fazer diferença, pois, cumprimos com o que nos cabe como parte desta sociedade, contudo, tem uma outra parte das nossas vidas que simplesmente não se “enquadra” dentro desta mesma sociedade que seguimos.

Somos por natureza e/ou por escolha, um tipo diferente de indivíduos: desejamos a liberdade no nível mais profundo de nosso ser. Um Homem disse uma vez: “Se você̂ deseja ser livre, você̂ tem apenas que começar a ser livre.”

A liberdade é um estado mental e não um estado do corpo. Nós somos e continuaremos a ser parte desta sociedade, contudo, não de forma passiva, pois, devemos também continuar a aumentar o que temos de melhor dentro dela. Nenhum sistema ou sociedade pode engolir o que um individuo tem de melhor, uma vez que este tenha tomado consciência destas suas virtudes. Por isso o conceito de institucionalização da Capoeira não cresceu tão profundamente dentro da maioria das comunidades de adeptos desta arte, especificadamente nas comunidades de Capoeira Angola. O estilo de vida da Capoeira é música para os nossos ouvidos, porque criamos o nosso próprio espaço com esta sociedade da qual fazemos parte, mas que muitas vezes desprezamos.

A Capoeira, como Mestre Pastinha disse, é tudo que a boca come. E como o ar, sabemos que está lá́, respiramos e precisamos dele; contudo, não podemos capturá-lo. A Capoeira não pode ser limitada a um grupo de praticantes, por uma organização formal e muito menos por um grupo de Mestres que clamam o monopólio sobre ela. A Capoeira vai além de todos nós. Nenhuma sociedade, comunidade, ou individuo jamais irá controlá-la.

Então, se praticamos a capoeira para nos afastarmos daquilo que há de tradicional e repressivo dentro da sociedade e que desaprovamos tão fortemente, porque quereríamos institucionalizá-la? Nos parece um tanto contraditório, já́ que institucionalização significa seguir profundamente todos os protocolos e leis detalhadas da sociedade para que nos enquadremos nos esquemas administrativos e corporativos com alguma prática e sentido reais: independência fiscal, oportunidades de doações, coesão administrativa e grupal, etc.

Grupos diferentes de Capoeira, dentro da história e mais ainda nestas últimas décadas, tentaram criar uma instituição ou organização paralela somente para a Capoeira, e se tornaram tão restritas e repressivas como a instituição original da qual eles haviam tentado se afastar.

Em todas as partes do mundo nós vemos a corrupção e escândalos que instituições e indivíduos fazem. O sistema controla vários setores da sociedade com um número pequeno de pessoas tendo o monopólio absoluto sobre estes.

Se olharmos para o Brasil como exemplo, vemos o carnaval e outras manifestações criadas pelo povo que foram institucionalizadas. O povo que originalmente os criou foram os que mais perderam com isso. Antes de pensarmos em institucionalização da Capoeira, nós temos que perguntar por que querem nos organizar? Porque quereríamos uma instituição para controlar o nosso estilo de vida? Quem vai ganhar com isso? A Capoeira? O capoeirista? Os burocratas? Será́ que estas instituições são realmente necessárias? Quem as controlará? Porque elas têm que ser tão repressivas, elitistas e ditatoriais? Podemos confiar nestas instituições e nos seus líderes moralmente, financeiramente, fisicamente e espiritualmente? O que é que nós queremos? Nós queremos a institucionalização da Capoeira, ou uma comunidade de Capoeira que trabalhe com “o sistema” para obter honestamente o que precisamos sem nos inclinarmos para o que este sistema tem a nos oferecer?

Embora estejamos abertos para crescermos no espírito e conhecimento da Capoeira, queremos evitar a imposição de valores de um grupo de pessoas e burocratas que já́ tenham criado as suas próprias escalas de valores.

Queremos uma comunidade que celebre e encoraje a individualidade e a cooperação entre seus membros; uma comunidade mundial de capoeira que respeite diferentes valores, crenças, pontos de vista, práticas, etc; em resumo, o que queremos é uma comunidade que respeite as nossas diferentes estórias e histórias, as nossas vidas diferentes e o nosso crescimento em direções variadas para o seu próprio fortalecimento. Pois, é isto o que nós todos teremos para oferecer através do entendimento e do amor sob a prática e o espírito da Capoeira.

Mestre Cobra Mansa

PS: Por favor, não altere o sentido desse texto e mande para todos os capoeiristas e individuo que acreditar na liberdade e em uma sociedade alternativa e mais justa.

Mestre Paulão Kikongo
De Mestre Paulão Kikongo setembro 22, 2019 13:33
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1 Comentário

  1. Mestre Picapau setembro 22, 14:41

    A capoeira nasceu, para para que a liberdade em sua totalidade fosse defendida e conquistada.e não podemos aceitar nenhum tipo de aprisionamento ou algo parecido….
    Salve a capoeira livre!!

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