A Mulher na Capoeira

Mestre Paulão Kikongo
De Mestre Paulão Kikongo março 6, 2009 21:48

A Mulher na Capoeira

Em 1996 André Lacé publicava no Jornal dos Sports a crônica A Mulher na Capoeira, crônica está que temos o maior prazer de republicar para os (as) nossos (as) leitores (as) em comemoração ao Dia Internacional da Mulher

A   MULHER   NA   CAPOEIRA

André Lacé

         A História do Brasil Colonial registra, de modo pouco preciso,  alguns  casos de mulheres jogando capoeira. Mas é neste século, a partir de algumas décadas atrás, que se começa a registrar, mais nitidamente, a presença da mulher. No começo, timidamente, abrilhantando a parte cantada, pouco a pouco, entretanto, a presença da mulher foi crescendo,  ocupando espaços cada vez maiores.   Da presença da mulher no canto, o disco de Mestre Bimba, gravado no início dos anos 50, é bom exemplo.mulher_capoeira

Mas, como exemplo pioneiro de mulher jogando capoeira, sem dúvida alguma, podemos citar o trabalho do Mestre Artur Emídio de Oliveira que, também,  por volta dos anos 50, entre outras moças, teve o prazer e a honra de ensinar a nossa tenista, campeã brasileira, Lucy Maia.

        O quadro atual, entretanto, é que está justificando o presente artigo. Pois, é muito possível, que a capoeira, atualmente, seja o esporte que reúna maior número de participantes do sexo feminino. E, como da quantidade, sempre tende a sair alguma qualidade, as rodas de capoeira já começam a contar com verdadeiras mestras. Constatação que serve para o Rio, Bahia, São Paulo, Minas, enfim, para todo o Brasil e para o resto do mundo, como veremos mais adiante.

            O tema começou a chamar minha atenção durante a festa de comemoração promovida pelo Professor Augusto Lopes, mais conhecido como Mestre Baiano Anzol.  Ao final da festa, comentando o desempenho da grande roda de capoeira (ecumênica; numa atitude exemplar, Anzol tratou de convidar "gregos, troianos e baianos"; o que, aliás, não deu muito certo, mas isto é outra história), percebi, para minha surpresa e a de todos, que meus dois destaques eram para duas capoeiristas: Gisele (Gigi), responsável pela "volta do mundo" mais pura e mais completa, onde, entre outros movimentos, deu uma rasteira absolutamente antológica; e Mônica (Cegonha), que, embora lamentando muito, foi obrigada a mostrar o que acontece quando uma parceira de "volta do mundo" insiste, obstinadamente, em aplicar um golpe mais da família do judô do que da família da capoeira. Aliás, este foi meu único reparo e meu alerta para esta legião de mulheres capoeiristas que começa a enriquecer as rodas de capoeira: cuidado com o "aburguesamento" da capoeira.

          Mas, o saldo da festa foi extremamente positivo, valendo registrar, muito especialmente, o momento, criado pelo Mestre Anzol, quando se formou uma roda só de mulheres. Saí de lá convencido que há potencial para fazer muito mais. Por que, por exemplo, não entregar, também, o comando da Roda (parte rítmica e cantada) às próprias mulheres?

          Perseguindo o "mote", tratei de conversar com uma capoeirista do grupo I.U.N.A. (Mestre Rui Henrique) que, além de lembrar vários nomes – Rosângela Rufatto, Sueli Cota, Índia, Babuína, Frances Lady  (Borboleta), Rita de Cássia Santos (contramestre China), Sueli (Suri-Sam), "Dilá" etc – concordou, em princípio, com a idéia de se estimular reuniões periódicas apenas de mulheres capoeiristas. Reuniões onde a Capoeira seria refletida sob o ponto de vista feminino. Por que não, por exemplo, as capoeiristas não começam a compor suas próprias ladainhas, com luz própria, filosofando sobre a sua própria presença no mundo e na volta do mundo (o resultado, certamente, mereceria ser perpetuado em disco, com a presença, fundamental, da encantadora voz da capoeirista Ciça, ora em Nova York; e – quem sabe? – com uma participação especial da fascinante cantora Elba Ramalho, recém-batizada numa Roda de Capoeira)?   E quanto aos  aspectos técnicos e táticos? E quanto à História da Capoeira e dos seus fundamentos? E quanto à Administração da Capoeira (processo de institucionalização!), tão negligenciado até agora?  E quanto à fisiologia e à anatomia? E quanto à ludicidade e agonística? E quanto à ética?

           E quanto à "terceira onda" (casal Toffler) da capoeira, sua internacionalização, as mestras de capoeira no exterior?   O consulado americano, por exemplo, com toda razão, nega o visto permanente para todo e qualquer pedido relacionado com o ensino da capoeira. Com razão, pois, afinal, assim como aqui no Brasil, existe lá fora, um bom número de "mestres" pouco expressivos. Mas, claro, existem, algumas extraordinárias exceções. Uma delas, sem dúvida, é o nosso querido doctor of humane letters  Mestre João Grande. 

            Ou seja, assunto é que não falta. Que venha, pois, a primeira reunião de mulheres capoeiristas.

RIO, 04 de fevereiro de l996.

Fonte: Jornal dos Sports (1996) & Jornal do Capoeira (fev/2006)


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Mestre Paulão Kikongo
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